sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Impossibilidade absoluta de conformar-se


Eu escrevo na impossibilidade absoluta de conformar-me. A maioria dos que você chama de "mandarins bem-pensantes da cultura" não passa de um bando de galinhas assustadas. Eles tentam fazer pressão sobre minhas assumidas irregularidades de comportamento, como forma de me enquadrar. Se eu me enquadrasse, eu ganharia página inteira na imprensa conformista. Eles gostariam que eu calasse sobre tudo, mas eu não me calo sobre nada. Para essa canalha, o meu pecado é eu ser poeta & intelectual na total insubordinação. Roberto Piva. Antropofagia e outros escritos. São Paulo: Córrego, 2016. p. 10.  


Os mandarins execrados por Piva disseminaram-se como hordas por todos os cantos do país. Um tempo em que a própria direita-escrota adota triunfante um estilo descolado. Como continuar um professor da classe rica branca e fadada ao mandarinato tecnocrático em meio ao golpe, à miséria econômica, política e intelectual que veio à tona num país de canalhas empoderados? É preciso escrever e lutar e cuidar das rotas de fuga. Na insubordinação total. É preciso matar temer e mendes que coabitam parasitariamente em nossa psiquê. No servilismo diário ao troco de vinténs, smartquinquilharias e subaposentadorias. No calar-se nosso de cada dia. No culto aos heróis paulistanos & cariocas e suas formas-de-vida condominiais. A esquerda acadêmico-safatleana não salvará nem a si mesma. Ir ao interior do interior do interior. Brigar em bares sujos. Cuidar de suas armas, amar e criar. Milhares e milhares de quilombos. Não se negocia com escravocratas! Era improvável que permanecessem tanto tempo nessa região inóspita e estéril, sem nada além de suas próprias forças e entusiasmo. Mas era sua única e real rota de escape. Continuar apenas pela impossibilidade absoluta de conformar-se. O Brasil é mais vasto que suas misérias e representações.   


imagem: guerreiras amazonas, Jean Cousin (1522-1595). 

segunda-feira, 3 de julho de 2017

O valor da desenvoltura - Massimo De Carolis




O espírito do liberalismo clássico está ligado, sem sombra de dúvidas, à reivindicação de uma aliança paritária e horizontal entre os membros individuais da comunidade contraposta às estruturas verticais que, ainda em pleno século XIX, eram endossadas por todo gênero de autoridade constituída: tanto a política quanto, e não menos, a moral e a religiosa. A ideia liberal era que a desenvoltura[1] dos indivíduos, deixados livres para perseguir os próprios fins subjetivos, pudesse gerar uma ordem espontânea, maleável e criativa, em benefício de todos. E que a rede de privilégios autorizados pela ordem constituída só poderia reprimir e frear a dinâmica criativa, em nome de hipotéticos valores coletivos na realidade modelados sob medida por meio do poder exercido pelas classes dominantes. A economia – que, à época, significava a indústria, o comércio e a circulação de mercadorias – valia como exemplo comprobatório de quanto uma similar ordem espontânea era superior àquela passível de se obter por meio do comando. Tal modelo de liberalismo econômico parece ter falido de modo irreparável nos anos entre as duas guerras mundiais e, entre as tantas respostas mais ou menos radicais para tal falência, o neoliberalismo foi a única a manter-se fiel à intuição de partida: a superioridade da ordem espontânea em relação a qualquer possível configuração da ordem constituída. Explicar a falência dos mercados e para eles projetar uma reviravolta adequada à profundidade da crise torna-se assim o problema candente. Em certo sentido, a resposta neoliberal já estava implícita no ponto de partida. Se a ordem espontânea havia falido apesar de sua intrínseca superioridade, a única explicação para isso era a de que grupos e sujeitos mais ou menos organizados tivessem conseguido abusar dela, manipulando a dinâmica espontânea exclusivamente em proveito próprio e, assim, às custas da desenvoltura coletiva. Apontar o dedo contra a especulação e os monopólios ou, da mesma forma, contra as organizações sindicais e os grupos de pressão com caráter explicitamente político mudava pouco as coisas, naquela altura, do ponto de vista lógico. A receita ainda permanecia a de criar as condições técnicas e jurídicas para que o mercado pudesse estabelecer de maneira unívoca e objetiva o valor efetivo das atuações, protegido de qualquer possível abuso. Na nova perspectiva, a preparação de um dispositivo técnico imparcial, posto que cego, valia como garantia de que, para o jogo da cataláxia, vencesse, no fim, verdadeiramente o melhor, e não o representante da vez do poder constituído. E o sucesso do programa, em última análise, se deu por conta da capacidade de interceptar um gênero de desejo que os processos de dinamização estavam tornando cada vez mais profundo e difuso: o desejo de ver reconhecidas e realizadas as próprias potencialidades, expondo os próprios sonhos à prova dos fatos, porque, em um mundo dominado pela contingência, é esse o único modo de fazer com que se consolide seu autêntico valor. A questão basilar tornara-se, em suma, a correta medição do valor (o valor de toda performance, de toda ideia, projeto ou empresa). A vida social foi assim invadida, de modo maciço, por tecnologias de medição e de incremento do valor, cujo escopo declarado era valorizar ao máximo a desenvoltura coletiva, com o pressuposto de que apenas confiando sua medição a algoritmos impessoais e cegos se neutralizaria na raiz o risco do abuso de poder. Sabemos agora, por experiência direta, que o pressuposto não correspondia à realidade dos fatos. Aliás, que era verdade seu contrário. Que quanto mais a fundo os dispositivos de cálculo penetram na vida social, mais essa “vida” é colocada a serviço das relações de poder, a criatividade é submetida ao controle e a inteligência é esvaziada e transformada em mera técnica administrativa. Procurando neutralizar e escapar das figuras tradicionais do poder, as práticas administrativas sugeridas pelo neoliberalismo favorecem, na realidade, a gênese de grandes aglomerados de poder com caráter reticular, nos quais força econômica, autoridade política e competência técnica são agora facetas de um mesmo cristal. E a tornar o processo inevitável é justamente a pretensão de fundo de calcular o valor e, com ele, a potencialidade e a desenvoltura intrínsecas à vida coletiva. Porque calculável não é, justamente, a potencialidade em si mesma, mas apenas o poder.

[1] N.T.: O termo utilizado por De Carolis é intraprendenza, que também poderíamos traduzir por empreendimento. De fato, o uso deste último – assim como seus correlatos, como “empreendedorismo” – tem se expandido no que diz respeito sobretudo a temas relacionados à dinâmica econômica no âmbito dos mercados. Porém, optei por utilizar desenvoltura por dar maior abrangência à ideia de “cálculo” a respeito da qual De Carolis trata no texto.

Trecho extraído de Massimo De Carolis. Il rovescio della libertà. Macerata: Quodlibet, 2017. Disponível em: https://www.quodlibet.it/de-carolis-valore-intraprendenza (trad.: Vinícius Nicastro Honesko)

Imagem: Vincenzo Campi. Vendedora de frutas. 1580 c. Pinacoteca di Brera, Milano.

sábado, 17 de junho de 2017

Estudo sobre a memória XIV

A noite sempre continua a mesma: desde os primeiros anos até esses encontros fortuitos que com ela travamos. "Os ausentes sopram e a noite é densa. A noite tem a cor das pálpebras do morto. Toda noite faço a noite. Toda noite escrevo. Palavra por palavra eu escrevo a noite", certa vez disse Alejandra Pizarnik, ela que pensava ser sua cabeça uma fumaça cinza-azulada que subia em ondas desde a ponta quase apagada de um cigarro. Os caminhos têm um sentido: rua beija-flor, rua condor, rua eurilemos, rua falcão, rua harpia, rua ibis, rua jacutinga e nesse esquadro de pássaros pelos quais me oriento desde tenra infância o mundo girou ao ponto de para fora dele me lançar. Não há mais mundo comum neste lugar que me é tão comum. Porém, ainda assim a noite continua a mesma, e, a cada volta no vazio da ordem alfabética ornitológica, passado, presente e futuro fazem uma constelação que escrevo com as letras que tentam desenhar a voz de um profeta. Um profeta que já não anuncia nada, que traz consigo apenas o grito de um anúncio que me diz que o mesmo da noite sempre será um completo outro. Também sobre esse lugar Lévi-Strauss falou algo: "De São Paulo rumo a oeste há uma linha aberta por uma companhia de colonização inglesa que funda, a cada trinta quilômetros, uma cidade. Numa delas quem por primeiro morou foi um francês." Os sentidos falavam inglês, francês e depois polonês, italiano, espanhol, mas, na noite, eles não dizem senão o silêncio: se esgarçam e, justamente, mostram o silêncio que vem da voz dos profetas (sempre, sempre une voix venue d'ailleurs). Não há ordem nos pássaros e, tal como as do morto, as grandes pálpebras desta cidade se fecham deixando apenas o absurdo do silêncio dos cantos ausentes dos pássaros: estes já não têm voz alguma e, engaiolados, nos deixam como único possível esta atividade sem esperança da escrita. Imagino cada pássaro (talvez da mesma forma como há anos imaginava) nesta estranha caminhada noturna, mas suas imagens só voltam, neste sem sentido, para me dizer que aqui jazem meus mortos, e nada mais. Apesar de tudo, e depois de um tempo, ainda escrevo com o lápis cravado no esquecimento.

terça-feira, 13 de junho de 2017

O que resta? - Giorgio Agamben


Giorgio Agamben


1.

“Tenho tamanha desconfiança no futuro que faço projetos só para o passado”. Essa frase de Flaiano – um escritor cujos trocadilhos devem ser levados extremamente a sério – contém uma verdade sobre a qual vale a pena refletir. O futuro, como a crise, é de fato hoje um dos principais e mais eficazes dispositivos do poder. Que ele seja acenado como um ameaçador pesadelo (empobrecimento e catástrofes ecológicas) ou como um radiante porvir (como pelo doentio progressismo), em todo caso, trata-se de dar a ideia de que nós devemos orientar nossas ações e nossos pensamentos unicamente por ele. Isto é, que devemos deixar de lado o passado, que não se pode mudar e que é, portanto, inútil – ou, no máximo, deve ser conservado em um museu –, e, quanto ao presente, que por ele devemos nos interessar apenas na medida em que serve para preparar o futuro. Nada de mais falso: a única coisa que possuímos e podemos conhecer com alguma certeza é o passado, enquanto o presente é, por definição, difícil de se apreender e o futuro, que não existe, pode ser inventado de cabo a rabo por qualquer charlatão. Desconfiem, tanto na vida privada quanto na esfera pública, de quem lhes oferece um futuro: esse aí está quase sempre procurando capturá-los ou enganá-los. “Jamais permitirei à sombra do futuro”, escreveu Ivan Illich, “de pousar sobre conceitos por meio dos quais procuro pensar o que é e o que foi”. E Benjamin observou que na recordação (que é algo diversa da memória como imóvel arquivo) nós agimos, na realidade, sobre o passado, o tornamos de algum modo novamente possível. Flaiano tinha então razão ao nos sugerir fazer projetos sobre o passado. Só uma investigação arqueológica sobre o passado pode nos permitir ter acesso ao presente, enquanto um olhar dirigido unicamente ao futuro nos expropria, com nosso passado, também do presente.

2.

Imaginem entrar numa farmácia e pedir um remédio de que têm necessidade urgente. O que fariam se o farmacêutico lhes respondesse que tal remédio foi produzido há três meses e, portanto, não está disponível? É exatamente isso que hoje acontece ao entrar numa livraria. O mercado editorial se tornou hoje um Absurdistão no qual a circulação exige que o livro seja mantido na livraria pelo menor tempo possível (com frequência não mais de um mês). Como consequência, o próprio editor programa livros que devem exaurir suas vendas – se acontecem – a termo breve e renuncia a construir um catálogo que possa durar no tempo. Por isso, eu – que ainda assim permaneço sendo um bom leitor – tenho cada vez mais desgosto ao entrar numa livraria (naturalmente existem exceções), onde as bancadas são ocupados apenas pelas novidades e onde é cada vez mais difícil encontrar o remédio (isto é, o livro) de que tenho vital necessidade. Se livreiros e editores não se voltarem contra esse sistema, em boa medida imposto pelas grandes distribuidoras, não deveremos nos espantar se as livrarias desaparecerem. Da mesma forma como surgiram, não poderemos nem mesmo por elas chorar.

3.

Nicola Chiaromonte certa vez escreveu que a pergunta essencial, quando consideramos nossa vida, não é o que tivemos ou o que não tivemos, mas o que resta dela. O que resta de uma vida – mas também e ainda antes: o que resta de nosso mundo, o que resta do homem, da poesia, da arte, da religião, da política, hoje que tudo com que estávamos habituados a associar a essa realidade tão urgente está desaparecendo ou até mesmo se transformando a ponto de se tornar irreconhecível? Ao entrevistador que lhe perguntava “o que resta, para a senhora, da Alemanha em que nasceu e cresceu?”, Hannah Arendt respondeu: “resta a língua”. Mas o que é uma língua como resto, uma língua que sobrevive ao mundo do qual era expressão? E o que nos resta quando nos resta apenas a língua? Uma língua que parece não ter mais nada a dizer e que, todavia, obstinadamente resta e resiste, e da qual não podemos nos separar? Gostaria de responder: é a poesia. O que é, com efeito, a poesia senão o que resta da língua depois que desta desativaram uma a uma as normais funções comunicativas e informativas? Lembro que Ingeborg Bachmann certa vez me disse que não era capaz de ir ao açougue e pedir: “me dê um quilo de bife”. Não creio que quisesse dizer que a língua da poesia é uma língua mais pura, que se encontra além da língua que usamos nos açougue ou em outros usos cotidianos. Creio, antes, que a língua da poesia seja o indestrutível que resta e resiste a toda manipulação e a toda corrupção, a língua que resta mesmo depois do uso que dela fazemos nos SMS e nos tweet, a língua que pode ser infinitamente destruída e todavia permanece, assim como alguém escreveu que o homem é o indestrutível que pode ser infinitamente destruído. Essa língua que resta, essa língua da poesia – que é também, creio eu, a língua da filosofia – tem a ver com o que, na língua, não diz, mas chama. Isto é, com o nome. A poesia e o pensamento atravessam a língua em direção ao nome, àquele elemento da língua que não discorre e não informa, que não diz algo sobre algo, mas nomeia e chama. Um breve texto que Italo Calvino costumava dedicar aos amigos como seu “testamento espiritual” se fecha com uma série de frases quebradas e quase sem fôlego: “tema da memória – memória perdida – o conservar e o perder aquilo que se perdeu – aquilo que não se teve – aquilo que se teve atrasado – aquilo que levamos atrás – aquilo que não nos pertence...”. Eu creio que a língua da poesia, a língua que resta e chama, chama justamente o que se perde. Vocês sabem que tanto na vida individual quanto na coletiva a massa das coisas que se perdem, a profusão dos ínfimos, imperceptíveis eventos que todo dia nos esquecemos, é tão ilimitada que nenhum arquivo ou nenhuma memória poderia contê-la. O que resta, a parte da língua e da vida que salvamos da ruína, tem sentido apenas se intimamente tem a ver com o perdido, se é de algum modo para[1] este, se o chama pelo nome e responde em seu nome. A língua da poesia, a língua que resta, nos é cara e preciosa pois chama o que se perde. Porque o que se perde é de Deus.

Essas notas reproduzem parte da intervenção no Salão do livro de Turim no dia 20 de maio de 2017.


13 de junho de 2017.



[1] Agamben utiliza o termo “per”, que pode ser traduzido tanto por “para” como por “por”. Já em seus textos sobre o poeta espanhol José Bergamín – em específico, sobre “A decadência do analfabetismo” – o filósofo seu utiliza desse jogo: o falar para e o falar por (em lugar de). É claro que também é toda a argumentação que Agamben levanta a respeito do “testemunho” em, sobretudo, “O que resta de Auschwitz”. 


Disponível em: https://www.quodlibet.it/giorgio-agamben-che-cosa-resta (tradução: Vinícius N. Honesko)

Imagem: Pieter Bruegel, o Velho. A Torre de Babel (detalhe). 1563. Kunsthistorisches Museum, Viena.  

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Caro Giulio, que tristeza essa Einaudi



A carta aberta de Giorgio Agamben, que aqui publicamos, contém um duríssimo ato de acusação face às vertentes atuais da editora Einaudi, e diz respeito principalmente a uma obra de mil páginas de Walter Benjamin intitulada “Baudelaire, um lírico na idade do capitalismo avançado”[1], até agora conhecida apenas parcialmente na França e na Alemanha. Dentre os mais conceituados estudiosos de Benjamin, Agamben foi o supervisor crítico da obra completa do filósofo publicada pela Einaudi. O primeiro volume, “Metafisica della gioventù”, veio à luz em 1982. Em 1986 é publicado o mastodôntico “Parigi capitale del XIX secolo” (mais de mil páginas). Em 1994 saiu “Ombre corte”, que reunia os escritos de Benjamin dos anos de 1928 e 1929. Agamben já havia falado sobre “misteriosos atrasos” em relação à obra-prima ensaística de Benjamin sobre Baudelaire, muito esperada entre os estudiosos, mesmo alemães. Atraso seguido pela troca de propriedade da Einaudi, depois de ter sido adquirida pela Mondadori. A obra, que havia sido entregue por Agamben à editora torinense em março de 1993, muitas vezes parecia que estava mesmo para sair, mas sempre patinava. Vittorio Bo, administrador representante da Einaudi, sempre foi muito tranquilizador: “A obra é muito complexa: não existem outras razões para o atraso da publicação”, é uma declaração sua para nosso jornal em junho deste ano (1996). Vittorio Bo prefere não responder, como diz Giulio Einaudi nas poucas linhas que nos enviou e que publicamos nesta mesma página. Eis o texto da carta aberta que Giorgio Agamben enviou a Giulio Einaudi.



Caro Giulio,

Ainda me lembro perfeitamente do dia em que, no distante 1981, você me confiou a organização da edição italiana das obras de Benjamin. Graças a Italo Calvino, eu há pouco começara a fazer parte do grupo de consultores da editora que se encontrava às quartas, na rua Umberto Biancamano n.1, e em cujas reuniões não raro encontrava Primo Levi, o próprio Italo, Franco Fortini, Cesare Cases e muitos outros amigos e intelectuais. Nasceram assim as Obras completas de W. Benjamin, que, juntos, queríamos que fossem novas em relação à edição alemã (dispostas como são em ordem cronológica e enriquecidas desde o primeiro volume por textos por mim encontrados) e que foram consideradas, por críticos estrangeiros, como um modelo de legibilidade e de rigor. Entre 1982 e 1986 saíram, um depois do outro, quatro volumes, aos quais se seguiram uma longa interrupção devido à crise financeira que afligiu a editora. Em 1991 retomei a organização a partir de uma obra de excepcional importância: a reconstrução e a publicação, em primeira edição mundial, do livro sobre Baudelaire no qual Benjamin havia trabalhado nos últimos anos de sua vida. De fato, encontrei em Paris um volume considerável de manuscritos benjaminianos que permitiam reconstruir, em seus particulares, uma obra da qual até então se conheciam apenas fragmentos sem ordem. O texto, em que trabalhava já há dois anos, foi entregue à editora em maio de 1992. Mas aqui começam as desventuras que motivam esta minha carta. Pouco depois que a editora passou à propriedade da Mondadori (isto é, ao grupo Fininvest) e a publicação da obra foi suspensa sem explicação. Pedi imediatamente meu afastamento da organização das obras de Benjamin e, graças também à sua intervenção pessoal, me foi assegurado que a obra seria recolocada na programação. Aceitei, assim, a organização de mais um volume das obras, “Ombre corte”, que saiu em 1994 e na qual se anunciava a publicação do livro sobre Baudelaire como volume XII das obras. Mas desde então as coisas não mudaram: a publicação do livro era constantemente postergada e a cada carta de protesto minha se seguiam vagas desculpas. Chegamos, assim, ao 20 de junho deste ano, quando, numa entrevista publicada no La Repubblica, respondendo a uma pergunta de Daria Galateria, tornei públicos meus temores. O conselheiro representante da Einaudi, ao ser interpelado por telefone por um redator do La Repubblica, declarou textualmente que a obra seria publicada o mais breve possível. Exatamente um mês depois recebo, ao contrário, uma carta do mesmo conselheiro representante em que me pedia para cortar e alterar substancialmente o livro (selecionar partes das seções individuais, de maneira a obter um livro com volume mais enxuto), porque de outro modo a obra não seria publicada pois podia prejudicar a reedição do precedente volume benjaminiano sobre Paris. Era como pedir para que um especialista em Dante encurtasse de modo substancial um manuscrito inteiramente novo da Comédia que ele acabara de encontrar para não prejudicar as precedentes edições. Diante da minha firme recusa de manipular o texto e de prosseguir na organização dos outros volumes enquanto o livro, já pronto, não fosse publicado, comunicaram-me que a editora havia decidido me retirar da organização das obras de Benjamin. Isto é, no mesmo momento em que a editora assumia para si a não leve responsabilidade de impedir ao público italiano a leitura da obra inédita de um nos maiores filósofos e escritores do século XX, ela se mostrava tão privada de escrúpulos a ponto de, por isso, retirar da organização das obras de Benjamin aquele que as havia idealizado e preparado seu planejamento. Caro Giulio, em verdade muito tempo se passou desde aquele distante 1981, e é talvez tempo para que ambos reconheçamos isso, mesmo se compreendo as razões que podem levar você a procurar defender a continuidade com o passado. Da minha parte, é com dor e pesar que comunico que não terei mais nada a ver, nem como autor nem como colaborador, com a editora que ainda leva seu nome e que tanta importância teve na história da cultura italiana do século XX, mas que, na verdade, hoje é apenas uma flor de papel na lapela de um império financeiro que cumpre uma ação nefasta e corrupta na cultura e na sociedade italiana.

Giorgio Agamben.



Caro Giorgio,

... Caro Giorgio, as razões técnicas, que eu compartilho, com base nas quais pensamos que não seja justo publicar o livro de Benjamin nos moldes como você propôs serão ilustradas para o leitor amanhã, nestas páginas, por Vittorio Bo. Aqui, deixe-me exprimir todo meu desgosto por sua presunção no que diz respeito às menções que faz a Mondadori e Fininvest, como se isso tivesse alguma coisa a ver com nossas decisões editoriais.

Giulio Einaudi.

 
Disponível em: http://ricerca.repubblica.it/repubblica/archivio/repubblica/1996/11/13/caro-giulio-che-tristezza-questa-einaudi.html?refresh_ce (13/11/1996)


[1] N.T.: A obra somete foi publicada em 2012, depois que as obras de Benjamin entraram para o “domínio público”, pela Editora Neri Pozza. Cf. BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire. Un poeta lirico nell’età del capitalismo avanzato. A cura di Giorgio Agamben, Barbara Chitussi, Clemens-Carl Härle. Macerata: Neri Pozza, 2012.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Estudantes - Giorgio Agamben



Giorgio Agamben
Maio de 2017

Cem anos se passaram desde que Benjamin, num ensaio memorável, denunciava a miséria espiritual da vida dos estudantes berlinenses, e exatamente meio século desde que um libelo anônimo, difundido na universidade de Estrasburgo, enunciava seu tema no título Da miséria no ambiente estudantil considerada em seus aspectos econômicos, políticos, psicológicos, sexuais e, em particular, intelectuais. Desde então, o diagnóstico impiedoso não apenas não perdeu sua atualidade, mas é possível dizer, sem medo de exagerar, que a miséria – ao mesmo tempo econômica e espiritual – da condição estudantil cresceu numa medida incontrolável. E essa degradação é, para um observador atento, ainda mais evidente uma vez que se procura escondê-la por meio da elaboração de um vocabulário ad hoc que está entre o jargão das empresas e a nomenclatura do laboratório científico. Um dado dessa impostura terminológica é a substituição, em todo âmbito, da palavra “estudo”, que se mostra evidentemente menos prestigiosa, pela palavra “pesquisa”. E a substituição é tão integral que é possível perguntar se a palavra, praticamente desaparecida dos documentos acadêmicos, acabará por ser apagada também da fórmula, que já soa como um naufrágio histórico, “Universidade dos estudos”. Procuraremos, ao contrário, mostrar que não apenas o estudo é um paradigma cognoscitivo sob todos os aspectos superior à pesquisa, mas que, no âmbito das ciências humanas, o estatuto epistemológico que lhe compete é muito menos contraditório do que o da didática e o da pesquisa.

Para o termo “pesquisa”, em específico, tornam-se particularmente evidentes os inconvenientes que derivam da incauta transferência de um conceito da esfera das ciências da natureza à das ciências humanas. O próprio termo remete, com efeito, nos dois âmbitos, a perspectivas, estruturas e metodologias de todo diversas. A pesquisa nas ciências naturais implica, acima de tudo, o uso de equipamentos tão complicados e custosos que nem mesmo é pensável que um pesquisador individual possa realizar suas pesquisas sozinho; além disso, implica direções, diretivas e programas de inquirições que resultam da conjuntura de necessidades objetivas – por exemplo, o aumento do número dos tumores, o desenvolvimento em curso de uma nova tecnologia ou as exigências militares – e de interesses correspondentes nas indústrias químicas, informáticas ou bélicas. Nada de comparável acontece nas ciências humanas. Nestas o “pesquisador” – que de modo mais próprio poderia ser definido “estudioso” – tem necessidade apenas de bibliotecas e de arquivos, aos quais o acesso é geralmente fácil e gratuito (quando uma taxa de inscrição é exigida, ela é irrisória). Nesse sentido, os protestos correntes sobre a insuficiência dos fundos de pesquisa (efetivamente escassos) são destituídos de qualquer fundamento. De fato, os fundos em questão são utilizados não para a pesquisa em sentido próprio, mas para participação em congressos e colóquios que, por sua natureza, em nada compartilham com seus equivalentes nas ciências naturais: enquanto nestes se trata de comunicar as novidades mais urgentes não apenas na teoria, mas também e acima de tudo nas verificações experimentais, nada de similar pode acontecer no âmbito humanístico, no qual a interpretação de uma passagem de Plotino ou de Leopardi não é ligada a nenhuma urgência particular. Dessas diversidades estruturais decorre que, além disso, enquanto nas ciências da natureza as pesquisas mais avançadas em geral são conduzidas por grupos de cientistas que trabalham juntos, nas ciências humanas os resultados mais inovadores são com frequência obtidos por estudiosos solitários, que passam seu tempo nas bibliotecas e não gostam de participar de congressos.

Se já essa substancial heterogeneidade dos dois âmbitos aconselharia reservar o termo pesquisa às ciências naturais, também outros argumentos sugerem restituir as ciências humanas ao estudo que as caracterizou por séculos. A diferença do termo “pesquisa”, que remete a um girar em círculo sem ainda ter encontrado o próprio objeto (circare), o estudo, que significa etimologicamente o grau extremo de um desejo (studium), desde sempre já encontrou seu objeto. Nas ciências humanas, a pesquisa é apenas uma fase temporária do estudo, que cessa uma vez identificado seu objeto. O estudo é, ao contrário, uma condição permanente. Aliás, pode-se definir o estudo como o ponto em que um desejo de conhecimento atinge sua máxima intensidade e se torna uma forma de vida: a vida do estudante – melhor, do estudioso. Por isso – ao contrário do que está implícito na terminologia acadêmica, na qual o estudante é um grau mais baixo em relação ao pesquisador – o estudo é um paradigma cognoscitivo hierarquicamente superior à pesquisa, no sentido que esta não pode atingir seu objetivo se não é animada por um desejo e, uma vez que o atinge, só pode conviver estudiosamente com este, transformar-se em estudo.

Em face a tais considerações é possível objetar que enquanto a pesquisa sempre tem em mira uma utilidade concreta, não se pode dizer o mesmo para o estudo, que, enquanto representa uma condição permanente e quase uma forma de vida, dificilmente pode reivindicar uma utilidade imediata. Aqui é preciso inverter o lugar comum segundo o qual todas as atividades humanas são definidas por sua utilidade. Por força desse princípio, as coisas evidentemente mais supérfluas são hoje inscritas num paradigma utilitário, recodificando como necessidades atividades humanas que sempre foram feitas apenas por puro prazer. Deveria ser claro, de fato, que numa sociedade dominada pela utilidade justamente as coisas inúteis se tornam um bem a salvaguardar. A essa categoria pertence o estudo. Aliás, a condição estudantil é para muitos a única ocasião para fazer a experiência, hoje cada vez mais rara, de uma vida que se subtrai aos fins utilitários. Por isso, a transformação das faculdades de humanidades em escolas profissionais é, para os estudantes, ao mesmo tempo um engano e um massacre: um engano porque não existe nem pode existir uma profissão que corresponda ao estudo (e isso por certo não é a cada vez mais rarefeita e desacreditada didática); um massacre porque priva os estudantes daquilo que constituía o sentido mais próprio de sua condição, deixando que, ainda antes de serem capturados pelo mercado de trabalho, vida e pensamento, unidos pelo estudo, para eles se separem irrevogavelmente.



Giorgio Agamben. Studenti. Disponível em: https://www.quodlibet.it/giorgio-agamben-studenti (tradução: Vinícius N. Honesko) 
Imagem: Fra Angelico. São Jerônimo. 1438-1440.  Lindenau Museum, Altenburg.

domingo, 30 de abril de 2017

Modos de dizer não, Antônio Carlos Gomes Belchior


O que expressa, o que desesperadamente grita a morte neste 30/04/17 de um dos principais poetas brasileiros e da língua portuguesa, um poeta que passou os últimos dez anos evadindo-se? A morte de Belchior, precedida por tentativas de desaparecer, não só das dívidas, mas das relações como um todo, diz muito não apenas sobre o colapso político brasileiro - e arte e política são indiscerníveis na produção de Belchior - mas sobre o que realmente pode a arte nestes tempos equívocos, tempos acelerados por uma máquina girando no vazio cujas engrenagens não conseguimos interromper. 
Seus últimos gestos, de alguém que dizia ser nada mais que um estudante da vida que desejava dar, foram além de qualquer canção: foram atos de uma fuga permanente. Não ao exílio midiaticamente edulcorado dos intelectuais da década de 70, e não apenas ao interior do país - lugares despidos de épica e de brilho, pequenas cidades do Rio Grande do Sul ou do Uruguai, que quiçá em pouco tempo alimentarão mitologias sobre esta passagem, - mas a um Sul inexistente, à América Latina de um impossível, quixotesco e imponderável Dante latino-americano (seu último projeto era a tradução da Divina Comédia). Belchior, com seu cancioneiro e com sua vida, forjou uma heterotopia dificilmente capturável pela máquina porno-espetacular-financeira que hoje a tudo devora. E não fez de sua evasão matéria de imposturas ou auto-promoção, mesmo quando confrontado pela invasão da TV fascista nacional. A música de Belchior fez parte de minha formação. Com uma tristeza no ar e uma sensação de noite histórica, cito trechos de alguns destes poemas, com suas frases longas que soam como prosa musicada, ou como próprio Belchior definiria, um palo seco, se lembrarmos de uma antiga forma do flamenco, onde a ênfase musical está nas palavras, sem a necessidade de acompanhamento por instrumentos (são puramente acessórios, na obra de Belchior, o violão ou arranjos). São músicas que podem soar como poemas, diário íntimos recitados publicamente, manifestos políticos contundentes ou modos de dizer não.
"Mas não se preocupe meu amigo com os horrores que eu lhe digo, isso é somente uma canção. A vida realmente é diferente, quer dizer ao vivo é muito pior." "Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve, correta, branca, suave, muito limpa, muito leve. Sons, palavras, são navalhas, e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém". "Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente, tome um refrigerante, coma um cachorro-quente, sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem, tem essa pressa de viver. Meu bem, mas quando a vida nos violentar, pediremos ao bom deus que nos ajude, falaremos para a vida: vida, pisa devagar meu coração cuidado é frágil; meu coração é como vidro, como um beijo de novela, meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão, o meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver, e esse jeito de deixar sempre de lado a certeza, e arriscar tudo de novo com paixão. Andar no caminho errado pela simples alegria de ser". "Eu não estou interessado em nenhuma teoria, em nenhuma fantasia, nem no algo mais. Nem em tinta pro meu rosto, ou oba oba, ou melodia para acompanhar bocejos, sonhos matinais, eu não estou interessado em nenhuma teoria, nem nessas coisas do oriente, romances astrais, a minha alucinação é suportar o dia-a-dia, é meu delírio, é a experiência com coisas reais". "Viver a divina comédia humana onde nada é eterno, ora direis ouvir estrelas, certo perdeste o senso.
Eu vos direi no entanto: enquanto houver espaço, corpo e tempo e algum modo de dizer não, eu canto." "Os filhos de Bob Dylan, clientes da Coca-Cola, os que fugimos da escola, voltamos todos pra casa. Um queria mandar brasa; outro ser pedra que rola...Daí o money entra em cena e arrasa, e adeus, caras bons de bola!" "Eu ando pelo mundo prestando atenção, em cores que eu não sei o nome. Cores de almodóvar, cores de frida kahlo, cores, passeio pelo escuro, eu presto muita atenção no que meu irmão ouve e como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora, eu quero chegar antes, pra sinalizar o estar de cada coisa, filtrar seus graus, eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone, e vendo doer a fome nos meninos que têm fome." No corcovado quem abre os braços sou eu, Copacabana esta semana o mar sou eu, como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão." "Não quero regra nem nada, tudo tá como o diabo gosta, tá, já tenho este peso, que me fere as costas, e não vou, eu mesmo, atar minha mão. O que transforma o velho no novo, bendito fruto do povo será. E a única forma que pode ser norma é nenhuma regra ter; é nunca fazer nada que o mestre mandar. Sempre desobedecer,
Nunca reverenciar." "Eu me lembro muito bem do dia em que eu cheguei, jovem que desce do norte pra cidade grande, os pés cansados e feridos de andar légua tirana, de lágrimas nos olhos de ler o Pessoa, e de ver o verde da cana, em cada esquina que eu passava um guarda me parava, pedia os meus documentos e depois sorria, examinando o 3x4 da fotografia, e estranhando o nome do lugar de onde eu vinha. Esses casos de família e de dinheiro eu nunca entendi bem, Veloso, o sol não é tão bonito pra quem vem do norte e vai viver na rua, a noite fria me ensinou a amar mais o meu dia, e pela dor eu descobri o poder da alegria, e a certeza de que tenho coisas novas, coisas novas pra dizer.. A minha história é talvez, é talvez igual a tua, jovem que desceu do norte, que no sul viveu na rua, que ficou desnorteado, como é comum no seu tempo, que ficou desapontado, como é comum no seu tempo, que ficou apaixonado e violento como você, eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você que me ouve agora. "Se você vier me perguntar por onde andei, no tempo em que você sonhava, de olhos abertos, lhe direi: amigo, eu me desesperava. Sei que assim falando pensas Que esse desespero é moda em 76, mas ando mesmo descontente, desesperadamente eu grito em português, tenho vinte e cinco anos, de sonho e de sangue e de América do Sul, por força deste destino, um tango argentino me vai bem melhor que um blues, sei que assim falando pensas, que esse desespero é moda em 76, e eu quero é que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês". 

Os últimos anos de vida do poeta mostram a deserção e a recusa ao canto partida de alguém que disse que cantaria enquanto houvesse algum modo de dizer não. Pergunto-me se hoje a literatura, a música e a arte podem ainda expressar estes modos de dizer não, ou se não nos resta apenas apenas a hipótese Belchior - um continuador da tradição rimbaudiana no séc. XXI - da evasão concreta, contínua e sem transigências.